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Bloc Party - Four (2012)

criticado por Diogo Montenegro, em 15.10.12

O hiato é invadido, mais frequentemente do que pretendido, por uma cólera indubitavelmente justificada. A perda gradual do costume, do hábito que poderia impor a tão procurada perfeição é tida como inimiga de inspirações audazes e instantâneas que se quotizam no topo da sua genialidade, com todo o potencial que trariam.

Duvidando arrogantemente e desprezando este preconceito enraizado na cultura actual, os no-need-for-presentations Bloc Party recusaram categoricamente o rótulo incólume, sem aspirações, de que a criatividade lhes seria importunada; sem atingir os utópicos Silent Alarm e A Weekend In The City - aquele não-sei-quê flutuante nas composições perdeu o fulgor -, foi orquestrado um récord sólido, dentro dos parâmetros frugais aceites para a banda.

De facto, a liberdade e a perseverança indefinida, característica das guitarras indie incendiárias, que entoa na rifftastic Octopus é ambígua à generalizada textura gris, contaminada por uma agressividade quase heavy, audível em Four. A distorção constante no som abafado produzido pela estrita correlação protagonizada pelas cordas - note-se um baixo enfatizado pelas dignas composições - alia-se à névoa da voz de Kele, ora cerrada e inaudível, ora transparente e cristalina, onde o frenesim nocturno e nostálgico da bateria de Tong se quota como essencial para a formação do todo. O resultado final apodera-se duma imprevisível frescura, latente numa Team A com traços de outras eras, numa Day Four deveras Blue Light alike e numa assombrante 3x3, recorrendo ao total potencial da amplitude vocal de Kele, descendo aos sussurros tão facilmente como sobe aos agudos.

Fechadas numa suave redoma de criatividade a que a banda sempre foi fiel, as experiências que envolveram tanto este como o anterior álbum (Intimacy) assemelham-se tão vivamente quanto as distinções que se apoderam do seu carácter. Enquanto a música se estilizou variavelmente, contagiando também os instrumentos, a parte empírica sempre se mostrou enriquecida; o ouvido cismava de início, permitia a sedução depois; a qualidade soava em prol da música tanto no lado pródigo do electrónico 3º álbum como na fusão de Wild Beasts com a sua parte mais obscura; assim como a sensação insaciada de potencial desaproveitado se tornava dubiamente permanente.

Entretanto, a proeza de motivação da ansiedade do ouvinte por mais material seguiu o mesmo caminho. O ímpar pós-punk revival dos Bloc Party ainda vive; o 4º LP esfomeia o ouvinte.

8 em 10.

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